| SÃO FRANCISCO DE SALES... | (continuação)

Nobreza e Santidade

Tendo Catolicismo já abordado em números anteriores a biografia de São Francisco de Sales (vide edições de janeiro/1999 e janeiro/2014), cuja festa se celebra no dia 24 de janeiro, decidimos apresentar aos prezados leitores os comentários acima, em que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira mostra as insignes qualidades e a atuação do grande santo, padroeiro dos jornalistas católicos.

Um aspecto pouco conhecido desse baluarte da Contra-Reforma, mencionado pelo autor, é que ele descendia de família nobre. Aproximando este aspecto de outros, muito mais divulgados, o autor ressalta a importância da nobreza na formação de uma sociedade católica.

Também de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira é o próximo texto sobre o grande número de nobres canonizados ou beatificados pela Igreja, que transcrevemos do seu importante livro Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (Livraria Civilização Editora, Portugal, 1993, p. 323).

Ser nobre e levar vida de nobre é incompatível com a santidade?

A incompreensão existente nos nossos dias em relação à nobreza e às elites tradicionais análogas resulta, em larga medida, da propaganda hábil, se bem que destituída de objetividade, que contra elas fez a Revolução Francesa.

Tal propaganda — alimentada continuamente ao longo dos séculos XIX e XX pelas correntes ideológicas e políticas sucedâneas àquela Revolução — tem sido combatida com crescente eficácia pela historiografia séria. Mas há setores de opinião nos quais ela perdura obstinadamente.

Segundo os revolucionários de 1789, a nobreza era constituída essencialmente por gozadores da vida, detentores de privilégios honoríficos e econômicos insignes, os quais lhes permitiam viver regaladamente dos méritos e galardões alcançados por longínquos antepassados. Podiam permitir-se o luxo de viver apenas desfrutando as delícias da existência terrena; e, o que é pior, especialmente as do ócio e da volúpia.

Essa classe de gozadores era apresentada, além disso, como altamente onerosa para a Nação, com prejuízo das classes pobres — estas sim, laboriosas, morigeradas e úteis ao bem comum. Segundo d’Argenson, “La Cour était le tombeau de la Nation” [a Corte era o túmulo da Nação].

Isso tudo levou à noção de que a vida própria de um nobre, com o realce e a largueza que normalmente deve comportar, convida de si mesma a uma atitude de relaxamento moral, muito diversa da ascese reclamada pelos princípios cristãos.

Grande número de nobres elevados à honra dos altares

Sem contestar que esta versão tenha algo de verdadeiro, pois na nobreza e nas elites análogas dos fins do século XVIII já se faziam sentir os sinais precursores da terrível crise moral dos nossos dias, é preciso acentuar que essa versão, nociva ao bom renome da classe nobre, tinha muito mais de falso que de verdadeiro.

Prova-o a própria história da Igreja. Entre outras coisas, pelo grande número de nobres que Ela elevou à honra dos altares, atestando por esta forma que praticavam em grau heroico os Mandamentos e os conselhos evangélicos. Por isso São Pedro Julião Eymard pôde afirmar: “Os anais da Igreja demonstram que grande número de santos, e dos mais ilustres, ostentavam um brasão, possuíam um nome, uma família distinta: alguns até eram de sangue real”.1

Vários desses santos abandonaram o mundo para mais seguramente alcançarem a virtude heroica. Outros, porém, como os Reis São Luís de França e São Fernando de Castela, permaneceram no fastígio da sua situação e alcançaram a virtude heroica vivendo inteiramente na altíssima condição nobiliárquica que lhes era própria.

Para tornar mais cabal o desmentido a estas versões que pretendem denegrir a nobreza, bem como os costumes e os estilos de vida que a sua condição comporta, ocorreu indagar qual a proporção de nobres entre os que a Santa Igreja cultua como santos. Não foi possível, no entanto, encontrar um estudo específico sobre este assunto. Alguns investigadores abordaram tal matéria, não tendo feito sobre ela uma pesquisa específica e exaustiva. Fundamentaram-se eles para os seus cálculos em elencos que apresentam como não completos.

Merece particular atenção um estudo feito por André Vauchez, Professor da Universidade de Rouen, intitulado La Sainteté en Occident aux derniers siècles du Moyen Âge,2 baseado nos processos de canonização e nos documentos hagiográficos medievais [vide quadro na página seguinte]. Apresenta ele uma estatística de todos os processos ordenados pelos Papas “de vita, miraculis et fama” entre 1198 e 1431. Estes totalizaram 71, dos quais 35 conduziram à conclusão de que os personagens sobre os quais versavam mereciam ser elevados à honra dos altares pela Igreja, o que esta efetivamente realizou ainda na Idade Média.3

Início do culto aos santos na Igreja Católica

Estes dados, apesar de muito interessantes, não podiam satisfazer o desejo de um quadro mais completo, pois diziam respeito a um número muito reduzido de pessoas e a um espaço de tempo relativamente curto. Tornava-se necessária uma pesquisa que abrangesse um número mais vasto de pessoas e um tempo mais amplo, sem entretanto pretender esgotar o tema.

Para tal tarefa, no entanto, algumas dificuldades ponderáveis surgiram. Antes de tudo, a inexistência de uma lista oficial dos santos cultuados como tais na Igreja Católica. Dificuldade, aliás, muito explicável, pois a inexistência de tal lista relaciona-se com a própria história da Igreja e o progressivo aperfeiçoamento das suas instituições.

O culto dos santos teve início na Igreja Católica com o culto prestado aos mártires. As comunidades locais honravam alguns dos seus membros, vítimas das

(continua)

São Luís, Rei da França (no centro), conduz a Coroa de Espinhos para a Sainte Chapelle, em Paris.