Dom Prosper Guérenger (1805-1875)
Dom Prosper Guérenger (1805-1875)
Palavra Do Sacerdote

A Palavra do Sacerdote - Agosto de 2026

O artigo apresenta a evolução do movimento litúrgico, desde a restauração promovida por Dom Guéranger e São Pio X até as reformas do Concílio Vaticano II. Critica a substituição da participação interior e contemplativa por uma participação coletiva, exterior e centrada na assembleia. Segundo o texto, inovações como o altar voltado para o povo, o uso do vernáculo e a simplificação dos ritos teriam enfraquecido o caráter sacrificial e sagrado da Missa. Também afirma que essas mudanças contribuíram para o afastamento da piedade popular e para a banalização das celebrações. Por fim, sustenta que o crescimento de comunidades ligadas à liturgia tradicional demonstraria a vitalidade do silêncio, da beleza, do mistério e da transcendência na vida católica.

Na coluna do mês passado, procuramos mostrar os grandes benefícios auferidos pela piedade popular do impulso pasto­ral antiprotestante dado pelo Concílio de Trento, por meio do catecismo, do esplendor do culto e da difusão de devoções paralitúrgicas que ajudavam os fiéis a se unirem es­piritualmente ao Santo Sacrifício da Missa.

Vimos igualmente a contrao­fensiva do Enciclopedismo e das correntes jansenizantes infiltra­das na Igreja, favoráveis a uma liturgia simplificada que falasse mais à razão do que ao coração do povo cristão. Foi nesse con­texto que surgiu o movimento de restauração litúrgica promovido por Dom Guéranger e levado à sua maturidade por São Pio X, por meio do canto gregoriano, da adoção do rito romano por todas as dioceses francesas e, sobretu­do, pela recepção frequente do Santíssimo Sacramento e a Pri­meira Comunhão das crianças desde a idade da razão.

Contudo, já nos últimos meses do pontificado desse santo pontífice, deu-se uma primeira inflexão no movimento, que desembocou num claro desvio. É o que examinaremos na coluna deste mês. O primeiro passo nessa direção desencarnada e protestantizante foi dado pelas abadias beneditinas de Beuron, na Floresta Negra alemã, e de Maredsous, na Bélgica, onde a herança de Solesmes começou a ser reinterpretada.

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Pergunta – Ao tratar das causas do enfraquecimento da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, o senhor apontou o Movimento Litúrgico, surgido há quase um século. Confesso que isso me deixou confuso, pois sei que esse movimento começou muito bem, com Dom Prosper Guéranger, o grande abade de Solesmes, que restaurou o canto gregoriano e devolveu às igrejas a beleza das cerimônias do rito romano. Depois vieram ainda as boas iniciativas de São Pio X — a promoção da comunhão frequente, o incentivo à música sacra, a reforma do ofício, entre outras. Por isso, não consigo entender como algo que começou de maneira tão boa pôde, pouco tempo depois, acabar favorecendo justamente o declínio de uma devoção tão importante como a do Sagrado Coração? Não teria sido o senhor severo demais na crítica ao Movimento Litúrgico?

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Pergunta – Participei recentemente de uma reunião ‘Crescendo na Fé’, organizada por um grupo leigo que eu não conhecia. Durante as discussões, tratou-se da devoção popular ao Sagrado Coração de Jesus, e fiquei bastante chocado ao perceber que o sacerdote palestrante e a maioria dos participantes apresentavam uma visão muito negativa dessa devoção. Alguns chegaram a afirmar que se tratava de uma prática pouco espiritual, que conduz a uma espécie de materialismo; outros disseram que seu objeto não era claro: se se tratava do órgão físico ou do amor entendido de forma simbólica. Houve quem alegasse que essa conexão entre o coração e o amor estaria superada pela ciência, que já não considera o coração como sede das emoções. Por fim, o próprio padre declarou que seria teologicamente errado prestar culto a uma parte do corpo, em vez de adorar a pessoa inteira de Cristo. Ainda foi feita uma crítica de que essa devoção dá ênfase excessiva aos sentimentos, colocando um foco desproporcional — até mórbido — no sofrimento e na reparação. Confesso que ainda estou perplexo com tudo que ouvi e gostaria de receber uma explicação que me ajudasse a preservar minha devoção ao Sagrado Coração Jesus.

Pe. David Francisquini