Devoção ao Sagrado Coração de Jesus
Foi muito oportuno o leitor ter levantado o assunto, pois também sou um entusiasta de Dom Guéranger. Leio com frequência suas Instituições litúrgicas e, mais ainda, O Ano Litúrgico — com os comentários às festas de cada dia —, que por vezes me serve de inspiração para o sermão. O problema é que, sob a mesma denominação, costumam-se designar indistintamente dois movimentos cujas motivações e princípios foram muito diferentes e, em larga medida, até opostos. Uma coisa foi o movimento litúrgico do século XIX até o fim do pontificado de São Pio X; outra, muito diferente, foi o movimento litúrgico posterior, que acabou desembocando no novo rito de Paulo VI e em todos os escândalos litúrgicos que pululam pelo mundo afora. Para compreender essa diferença, é preciso situar um e outro no respectivo contexto e fazer o histórico dos princípios que os guiaram, bem como dos efeitos que sua aplicação teve na vida da Igreja. Como isso me obriga a fornecer muitas informações, na coluna deste mês tratarei apenas do movimento litúrgico originário, deixando para outra ocasião a análise de seu sucedâneo espúrio, responsável, por exemplo, pelo declínio da devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Efeito benéfico do Concílio de Trento para a piedade popular Para compreender bem o contexto em que se desenvolveu o primeiro movimento litúrgico, é preciso voltar um pouco no tempo e considerar os efeitos que tiveram, especialmente na Alemanha e na França, as disposições do Concílio de Trento em matéria litúrgica.
Como é sabido, em oposição ao culto protestante — sobretudo ao luterano e ao calvinista, que simplificavam a liturgia, favoreciam a pregação em língua vulgar, reduziam o caráter sacrificial da Missa e rejeitavam grande parte do cerimonial tradicional —, o Concílio de Trento tomou disposições destinadas a afirmar dogmaticamente a natureza sacrificial e sacramental da liturgia católica, bem como a uniformizar sua prática.
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